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A atendente e a covardia do não falar


Apesar de meu apê atual estar ao lado de um canteiro de obras com britadeiras infernais durante o dia e à noite estar quatro andares acima de uma discoteca que toca músicas de gosto duvidoso até as 3h00 da manhã, eu tenho à disposição uma livraria de rua a apenas 200 metros. Para quem ama livros e vem de um país onde as livrarias são raras, sobretudo as de rua, isso é um fato que me fará dar pontos a mais na avaliação do Airbnb. Mas essa livraria de rua não é a única na cidade. Aqui em Portugal (ainda) não há Amazon e as pessoas têm acesso a livrarias tal como tem a bares, pastelarias ou tabacarias.

Um dia, precisei de um presente de aniversário para uma amiga e resolvi prestigiar a livraria vizinha. Um lugar pequeno, um tanto quanto bagunçado, com muitos livros acadêmicos e jurídicos, mas ainda assim um espaço com seções de poesia, ficção, biografias e lançamentos. Noto que a atendente é a mesma a cada visita. Uma mulher com mais de 50 anos, cabelos castanho-claros, porém não simpática. Apenas cordial, bastando para alguém como eu que se diverte com uma batalha mental entre estímulos sedutores de livros a serem lidos versus etiquetas de preços brochantes com valores em euros.

Nessa visita, enquanto eu procurava o título perfeito para o presente, ouço a atendente falando com um senhor, na faixa dos 80 anos. Ela falava em um tom de voz um pouco mais elevado do que se espera para um espaço diminuto destinado à leitura. Um alarme dentro de mim foi acionado: a curiosidade ruminou o muro da discrição, ultrapassou a porta da sensatez e se sentou no banco da cara-de-pauzice. Inevitavelmente, me interessei pela conversa e me aproximei da seção de ficção científica para compreender o que se passava. Uma tarefa complexa considerando acentos portugueses, emoções à flor da pele e máscaras cirúrgicas. Apesar dessas barreiras para a fluida propagação do som, consegui compreender o que acontecia enquanto folheava ‘Eu, robô’.

A atendente trabalhava havia 32 anos na livraria e, pelo que entendi, seus patrões a decepcionaram a ponto de ela não saber se estaria ali no dia seguinte. A princípio, o velho senhor parecia ser seu conhecido, mas se tratava de um cliente da casa, alguém de passagem, o confidente ideal para o momento de desesperança com o futuro. Ela chorava e continuava a dizer como se sentia frustrada nessa fase final da sua carreira. O senhor consentia com a cabeça e era todo ouvidos ao relato da mulher.

Fiquei tocada com a situação da atendente. Fui para a fila, esperando o senhor se despedir, e formulei em minha mente tudo o que eu iria falar para ela.

“Senhora, desculpe a minha indiscrição. Foi impossível não escutar a sua história e me sentir empática com a sua decepção. A sociedade capitalista nos impele a acreditar que ao ter empregos estáveis e ter espaço de praticar a “dor de dono” em nossos empregos, seremos realizados e bem recompensados profissional e financeiramente. Nem sempre é assim. Essa simbiose entre nós e as empresas empregadoras destitui-nos da nossa sensibilidade e nos desorienta a ponto de não sabermos mais quem somos além do crachá. Ao sair do meu último emprego, eu senti um certo alívio, mas também um vazio gigantesco dentro de mim a ponto de constantemente repensar uma volta à vida que eu não quis mais. Não me curei ainda, estou em um processo de altos e baixos, mas com mais descobertas positivas do que negativas. Os momentos escuros nos fazem perceber novas fontes de luz. Sua história é de inegável sucesso, considerando as centenas (ou milhares?) de leitores que auxiliou ao longo desses 32 anos. Eu reconheço o seu valor e faço votos de que você fique bem.”


- Senhoraaaa... olá senhora? A senhora vai levar esse livro, pois?

- É... hummm... sim...

- Número de contribuinte?

- Não..., mas eu queria te dizer algo.

- Sim, pronto.

- É... hummmm... eu tenho o clube de vantagens.


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