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Gusttavo Lima, eu e você



Antes mesmo de começar a namorar meu marido, ele falou desse restaurante em Siena, na Itália. Segundo ele, era o melhor que já havia ido na vida e unia todos os predicados de uma experiência inesquecível: ambiente charmoso, atendimento impecável e, é claro, comida incrível. Havia um desejo de irmos a esse local e isso só foi concretizado dez anos depois, justamente quando completamos uma década juntos.

A reserva foi feita no dia anterior e por pouco não conseguimos uma mesa. Apesar de qualquer buraco na Itália ser um potencial achado da gastronomia local, ao entrar, compreendi o que ele me dizia sobre aquele restaurante. As paredes de pedra e os objetos aleatórios pendurados pelo teto nos transportavam para uma Itália do século XVI. Os pratos aromáticos se equilibravam nas mãos dos garçons vestidos de preto e branco até pousarem em mesas finamente postas. Pão, azeite, presunto, massa, vinho, molho, tudo demonstrava que a simplicidade é a maior sofisticação. Embriagada por essa explosão de sensações, eu tive uma brilhante ideia.

Saí para ir ao banheiro e, no caminho, chamei de canto o garçom da nossa mesa. Com meu italiano macarrônico, comentei estarmos celebrando nosso aniversário de união. Per favore, è possibile di scrivere, in un dolce, un messaggio in cioccolato come ‘Felice 10 anni’? A cada palavra, gesticulava tal como uma jogadora de Imagem & Ação: depois - pança - cumbuca - sobremesa - saco de confeitar - escrever - duas mãos abertas - mãos em formato de coração. Percebi que ele havia sacado a mensagem quando levantou os braços e disse Sí, sí, che bello è l'amore!. Comemorei como se tivéssemos ganhado a rodada de mímica. Animada com a surpresa que seguiria, caminhei até o toalete para não levantar suspeitas.

Após alguns instantes, já de volta à mesa, fazíamos mais um brinde quando, de repente, todas as meias-luzes do restaurante se apagaram. Eis que surgiu uma música tocada no taaaaalo:

EU JÁ LAVEI O MEU CARRO, REGULEI O SOM

Eu não entendi nada, meu marido não entendeu nada, ninguém entendeu nada. Todos movimentavam as cabeças, procurando compreender o que estava acontecendo.

TÁ TUDO PREPARADO, VEM QUE O REGGAE É BOM

No lugar do breu, luzes neon começaram a ser disparadas como raio-lasers em direção aos nossos olhos.

MENINA FIQUE À VONTADE, ENTRE E FAÇA A FESTA

Pensei comigo: algum garçom deve ser brasileiro e se atrapalhou na hora de escolher a música-ambiente. Vai levar um esporro, certeza.

ME LIGA MAIS TARDE VOU ADORAR VAMO NESSA

Ao virar o rosto para a esquerda, visualizo o garçom-amigo puxando uma fila de garçons. Ele segurava uma taça de sobremesa com uma vela que piscava. Seu colega de trás carregava duas taças de espumante com gelinhos coloridos.

GATA ME LIGA MAIS TARDE TEM BALADA

Eles dançavam uma espécie de mambo festivo, sorriam e cantarolavam por trás das máscaras. Nessa hora, o restaurante todo batia palmas ritmadas seguindo os acordes do sertanejo universitário.

QUERO CURTIR COM VOCÊ NA MADRUGADA

Foi nesse momento que entendi que eles vinham na nossa direção. Todo aquele auê era a forma do restaurante celebrar alguma data festiva de seus convivas.

DANÇAR, PULAR QUE HOJE VAI ROLAR

Meu marido esbugalhou os olhos na minha direção, vermelho de vergonha ao receber um tapinha nas costas do garçom, a taça de espumante com gelinho azul e um tiramisù com o número 10 escrito em caramelo.

O TCHE TCHE RERE TCHE TCHE RERE

Eu só levantei os ombros, fiz uma cara de constrangimento, levantei a taça de gelinho rosa e disse:

GUSTTAVO LIMA, EU E VOCÊ!


***

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