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O papagaio da Amália




Era para ser mais uma visita a uma casa-museu. Sou apaixonada por esses passeios a residências de pessoas notórias, me sinto uma voyeur ao observar a vida íntima de alguém por meio de sua casa. Além disso, as casas preservadas de décadas e séculos atrás são uma espécie de imagem 3D do cotidiano das pessoas que vieram antes de nós. Fica mais fácil imaginar como seria comer, dormir, se entreter, se assear no passado observando panelas, pijamas, pianos e pentes.

A casa escolhida para aquela manhã de sábado ficava na Rua São Bento, em Lisboa. Naquele endereço, viveu por mais de quarenta anos Amália Rodrigues, cantora de fado e uma das mais notáveis personalidades portuguesas. Eu não conhecia quase nada da sua história, do seu trabalho, dos seus feitos. Visitar seu museu seria uma forma de aprender não só sobre Amália, mas um pouco mais de Portugal.

Ao chegar na casa, construída antes do terremoto de 1755, entendi o porquê de ela ser também um museu. A sala era circundada por azulejos azuis do século XVII-XVIII e guardava uma coleção de objetos ecléticos de decoração, peças de mobiliário clássico, pinturas com paisagens e retratos e, é claro, guitarras portuguesas. Tudo ali era pura energia e personalidade. Segundo a guia, aquela sala era um espaço de encontro de Amália com seus amigos para tertúlias de poesia e música. Acredito que eu me divertiria, e muito, em uma dessas festas "amaliescas".

Passamos pela sala de jantar requintadíssima e, enquanto olhávamos jogos de talheres e de louça, comecei a escutar um barulho grave e constante. Não dei muita bola, achei que era algum tipo de manutenção sendo feita em outro cômodo.

Ao chegar na cozinha da casa, uma cena improvável para um museu: um papagaio cinza gralhando em cima de um poleiro. Eu não entendi nada. Era mesmo para ele estar aí? A guia foi até o animal e começou a acariciá-lo. “Este é o Chico, o papagaio de estimação da Amália”. Hã? Como era possível? Comecei a fazer contas. Amália faleceu em 1999, há quase 23 anos... “Ele tem 31 anos”, a guia falou, como se percebesse a minha cara de ué. “Conviveu 8 anos com a Amália e ainda chama pelo seu nome”. Enquanto me acostumava com a ideia de ter aquele papagaio ilustre entre nós, a guia notou que ele havia se enroscado na corda de metal que o prendia ao poleiro. “Desculpem, mas precisarei chamar a minha colega para desenroscar o Chico.”

Ficamos sozinhos com o animal. Olhávamos para ele e ele nos olhava de volta, irritado pela dor da corrente em sua pata. Compreendi que ele era o único ponto de conexão vivo entre mim e aquela mulher apaixonante e eu queria perguntar taaanta coisa pra aquele bicho… Como era ser um papagaio de alguém famoso? Amália cantava pra você? Você gosta de fado? Como é o sotaque de um papagaio português? Como é morar em um museu? Se você não estivesse preso, para onde voaria? Você se sente solitário? Qual a sua lembrança mais forte da Amália? Do que você mais sente falta dela?

A guia voltou com sua colega e a mulher, em poucos instantes, soltou o pássaro. Não consegui fazer minhas perguntas, mas ele ainda assim me respondeu, com uma voz aliviada, esganiçada e (por que não?) emocionada:

“Bom diiia!”

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