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A mala vermelha no metrô



O vagão do metrô pára na estação dos terminais 2 e 3 do Aeroporto de Heathrow. Eu estou no vagão e, pra variar, olho posts aleatórios no Instagram. O espaço está praticamente vazio, apenas duas mulheres na minha frente com malas de mão, um casal de chineses no canto com três malas gigantes, um senhor com uma sacola na quina, e duas garotas a alguns assentos de distância, uma com mala rosa rígida e a outra tomando uma Coca-Cola de canudo.

De repente, uma mala média vermelha surge ao lado da porta de entrada do vagão. Ela não apareceu como um fantasma, não veio andando sozinha, nada disso. Mas ela estava desacompanhada, não parecia ter dono. Olho para os lados e ninguém parece se importar com ela. Espicho o pescoço e percebo um adesivo branco da AirFrance.

A imaginação é uma das minhas maiores companheiras. Com ela, crio planetas paralelos, idiomas estranhos, sociedades alternativas, personagens bizarros, situações inusitadas. Naquela circunstância, a mala vermelha no metrô virou o invólucro para uma bomba. Imagino cenários: se ela explodir, eu não teria tempo nem de proteger o rosto das primeiras chamas e estilhaços. Quão ensurdecedor seria uma explosão em um metrô? Dá pra detonar uma explosão de forma remota? Iriam assumir a autoria deste atentado?

A mala poderia ser também o desfecho de um arrependimento. O ladrão da mala proveniente de Paris se lembrou da mãe que lhe dizia “meu filho, o crime não compensa” e deixou a prova de seu primeiro furto no vagão. No entanto, apesar da culpa, ele se despediu mentalmente da mala com uma pitada de orgulho por sair ileso de um dos maiores aeroportos do mundo. Talvez a adrenalina compensasse, pensou ele, ao acender um cigarro ainda na estação.

A mala vermelha solitária poderia ser resultado de uma brincadeira sem graça. Um amigo bêbado após tomar vários uísques no voo Marseille – Londres quis bancar o engraçadão e surrupiou a mala do amigo sonolento, deixando-a no vagão seguinte. Mal sabia ele que o amigo sonolento também lhe sacaneou, tomando sua carteira e colocando-a dentro da sua mala algumas horas antes.

Ou então a mala poderia conter pedaços de um corpo a ser ocultado, barras de ouro transportadas por um herdeiro esquecido, cápsulas de cocaína extraídas de um estômago traficante, isopores cheios de camarão mal condicionado, armas brancas de uma facção criminosa, roupas de uma amante indiscreta que desejava ser descoberta pela esposa traída, obras de arte surrupiadas de um museu na Bretanha.

Na estação de Hammersmith, a garota com a lata de Coca-Cola na mão levanta-se, cruza o vagão, pega a mala vermelha e sai pela porta.


Lendo o livro ‘A louca da casa’, de Rosa Montero, me identifiquei com uma de suas reflexões, ao falar da diferença entre ela e sua irmã: “Martina é tão corajosa que roça o inconsciente, enquanto eu sou bastante medricas (mas sempre achei que a valentia física está ligada à ausência total de imaginação, à incapacidade de aperceber mentalmente o perigo e, por conseguinte, quando mais fantasiosos somos, mais medo temos).”


Pelo jeito eu também sou deveras medricas, Rosa.


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