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Ver e sentir o Quebra-Costas



No centro histórico de Coimbra, há uma rua emblemática chamada Rua do Quebra-Costas. Ela é a artéria pedestre que liga a parte Baixa à Alta da cidade e seus degraus degastados devem estar lá há centenas de anos. Ao subir a ladeira, é um suplício de tão íngreme; ao descê-la, as pessoas literalmente podem quebrar a coluna, como o próprio nome da rua indica. Eu fico encantada com aquele pedaço de história em formato de edificações e luminárias, mas metade do trajeto eu gasto olhando para o chão. É o tal do medo de cair.

Eu tenho uma tendência, anatômica talvez, desatenta provavelmente, de tropeçar ou virar pés e cair no chão. Teve uma época que isso acontecia com uma certa frequência, sobretudo pelo uso diário de sapatos de salto alto e plataformas. No espaço de uma semana, cheguei a ralar o mesmo joelho duas vezes, uma vez em plena Faria Lima em São Paulo e outra vez correndo, aterrissando no meio de uma rua em Curitiba. A última queda aconteceu na semana passada, às margens do Rio Mondego, também durante uma corrida. Nunca aconteceu nada grave, só ficaram as cicatrizes e as cautelas.

Subindo uma manhã em direção à universidade, eu parei alguns segundos para recuperar o fôlego no meio da Quebra-Costas. Fazia frio, o sol iluminava algumas paredes dos prédios antigos e a região estava praticamente deserta. Foi quando eu vi uma jovem, em torno dos 18 anos, descendo os degraus da viela. Podia ser uma cena corriqueira, se não fosse o fato de ela portar um bastão de cego.

Eu já ajudei deficientes visuais a atravessar ruas em outras ocasiões. Apesar de eles estarem nas faixas e de contarem, em algumas ocasiões, com sinais sonoros para delimitar o tempo de deslocamento, havia a insegurança de não saber se os motoristas respeitariam as leis de trânsito. Ali, na situação com a garota, havia a implacável ação da lei da gravidade e ela parecia correr um risco. Resolvi abordá-la.

‘Oi, você precisa de ajuda para descer essa rua?’

A jovem era loira e tinha um rosto que lembrava anjos barrocos. Ela docemente segurou o meu braço e sorriu.

‘Não há necessidade, obrigada. Muito bom dia.’

Seu toque caloroso radiou pelo meu antebraço, dedos, peito, coração. Voltei ao meu caminho e olhei para trás. Ela continuou a descer a rua e o barulho delicado do seu bastão no chão se misturava com o som das andorinhas no céu.

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